Trump e um atoleiro chamado Irã




Um dos principais aspectos da atual gestão de Donald Trump é restaurar forte ação belicista e interventora contra o Irã.  Para Trump, deve-se remover  todas as restrições de Israel em sua luta contra "grupos terroristas" apoiados pelo Irã. Segundo Trump, o governo Biden forçou Israel a lutar contra o Hamas com uma mão "amarrada nas costas", ameaçando reter armas e munições de Israel se não conduzir operações militares da maneira que a Casa Branca quer que faça.  Nos últimos dias Trump e Israel decidiram então atacar fortemente o Irã, com amplo bombardeio e operações de decapitação de lideranças, sabotagem e afi s. 

O grande problema é o seguinte, até que ponto isso foi algo plausível? É possível destronar lideranças do Irã e promover um domínio direto do país por uma intervenção sem uma guerra sanguinolenta? Eis o erro de Trump e Israel. Na sociologia política o Irã pode ser visto como um "Estado-guarnição" um  regime híbrido  que combina estruturas ditas  "democráticas" e de alguma forma uma  autocracia-religiosa. Nesses tipos de Estado, existe uma tendência crescente de afastamento do papel de "especialista em negociação" (elite civil) para o de "especialista em violência ou monopólioda violência", o modelo de Estado-guarnição aqui pode ser  descrito através da evolução do "Sepah" como um "auxiliar" da elite civil para uma guardiã de fato de um dos grupos mais poderosos da sociedade, exercendo influência direta e indireta.

Entretando, devido à ausência de um partido centralizado, estruturas auxiliares como a Sepah assumiram um papel mais preponderante no sistema político.  Com a  ausência de um canal organizado de infiltração, a relação da Sepah com sua autoridade político-clerical, no tipo de guardião auxiliar, é sustentada em grande parte por seu método de controle carismático baseado em ideologia, lealdade pessoal e valores compartilhados. No âmbito desses valores está um senso de devoção aos princípios do Islã xiita, à Revolução Islâmica e, principalmente, a doutrina do "Velayat-e Faqih" (o Mandato do Jurista), que confere o direito de governar a um clero de alto escalão.

Portanto, o papel da Sepah é definido principalmente como o de fornecer apoio adicional, porém vital, para a manutenção do sistema de Velayat-e Faqih. A autoridade constitucional formal da Sepah como "guardiã da revolução e de suas conquistas" a designa como defensora do sistema, encarregada de combater os inimigos da revolução dentro e fora do país. Apesar desse papel vagamente definido, a missão política da Sepah é limitada por seu status auxiliar. Desse modo, a Sepah não exerce um papel de supervisão sobre o funcionamento do sistema político apenas. Esse é o cerne sa questão, dada a dualidade do sistema político do Irã, que designa as "instituições de braço estendido" do líder e os órgãos "super-religiosos" com autoridade de supervisão e controle sobre o Majlis eleito pelo povo e a presidência, a  Sepah funciona sob os auspícios da figura político-religiosa do Líder Supremo, mas atuando como um contra-balanço. 

Tanto a Sepah, como o estado e suas instituições atuam como uma coisa só.  É como um bloco hegemônico no estilo Gramsciano.  O controle e penetração do establishment clerical-militar é bastante profundo. Para termos uma noção do negócio, o Estado não divulga estatísticas sobre o número exato de clérigos do país, uma omissão provavelmente deliberada. Uma estimativa coloca o tamanho total do clero do Irã entre 350.000 e 500.000. Destes, acredita-se que aproximadamente 1.000 sejam aiatolás, dos quais cerca de 30 são grandes aiatolás.

Existem aproximadamente 70.000 mesquitas, das quais 2.000 estavam localizadas em Teerã. Existiam um total de 840 imãs das orações de sexta-feira, embora cerca de 35 a 40% de todas as mesquitas estivessem sem imãs.  Da população clerical total do país, estima-se que menos de 5.000 estejam envolvidos em diferentes agências estatais, muitas delas concentradas no judiciário, nos escritórios político-ideológicos das forças armadas ou como representantes do velayat-e faqih em fundações ( bonyad s), universidades, províncias e outros lugares.

A Simbiose é tanta que quando jovens estudantes ingressam nas universidades, ou no exército ou nas forças de segurança ou em qualquer instituição eles passaram por algum nível de doutrinação política.  Por tradição, o Ministro do Interior é um clérigo.  Juntamente com o howzeh , outra instituição estatal fundamental na qual o clero tem atuado é o legislativo, com vários dos presidentes do Majles tendo sido clérigos. Existe alguma chance de dominar um país desses de fora e a força? Vejamos, a curto, médio e talvez até longo prazo é bem difícil, a tarefa que parecia simples para Trump torna-se cada vez mais um atoleiro. 

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