O principal erro da escola Austríaca.





É possível pensar qualquer método cientifico a partir de algum Apriorismo? bom na história da filosofia, a famosa  distinção entre conhecimento a priori e a posteriori se estabeleceu como  uma distinção entre modos de conhecer. Dizer que conhecemos independentemente da experiência, significa dizer que temos um conhecimento a priori. Por exemplo, a proposição de que dois mais dois é igual a quatro, ou a de que chove ou não chove, são proposições que podemos conhecer independentemente da experiência, ou pelo do pensamento apenas. Durante a historia do pensamento, essa noção ganhou forte relevância a partir de Immanuel Kant que equacionou-a com a de necessidade estabelecendo a seguinte equivalência: uma proposição é conhecível à priori se, e só se, for necessária. 

Uma das bases do pensamento austríaco está exatamente nesse apriorismo, a praxeologia, a TACE, tudo ou quase tudo está pautado dentro desse esquema.  Mas, esses pressupostos começaram a serem questionados pós Kant. Aqui eu irei citar três grandes refutadores. O primeiro deles é o americano  W.V.O. Quine que  rejeitou a distinção tradicional entre conhecimento a priori , independente da experiência e a posteriori , atacando o conceito de verdades analíticas em sua obra "Dois Dogmas do Empirismo". Ele argumenta que nenhum enunciado é imune à revisão pela experiência, propondo um holismo onde a ciência é uma rede total de crenças, tornando o conhecimento sintético a posteriori. 

Outro grande da filosofia da ciência é o alemão, Hans Reichenbach, que  reinterpretou a noção kantiana de sintético a priori, transformando-a no que ele chamou de  "a priori relativizado" ou a priori constituinte, em resposta à teoria da relatividade de Einstein.  Reichenbach argumentou que esses princípios são "Constituidores do Conhecimento" e, portanto, podem mudar à medida que a ciência evolui. Em seu trabalho The Theory of Relativity and A Priori Knowledge, Reichenbach rejeitou a ideia de que a geometria euclidiana fosse um conhecimento sintético a priori inquestionável por exemplo.  Com os avanços da  teoria da relatividade,  a geometria do espaço físico (não-euclidiana) a geometria   diferencial  Riemann, que deve ser descoberta através da experiência, e não imposta pela razão a priori.

Apesar disso, o "A Priori Relativizado" (Axiomas de Coordenação), Reichenbach não abandona totalmente o conceito de a priori. Ele distinguiu entre axiomas de conexão, leis físicas, sintéticas a posteriori e axiomas de coordenação. Os axiomas de coordenação são definições que conectam os conceitos matemáticos ao fenômeno  da realidade física, por exemplo, definir que uma régua rígida mede um espaço reto. A Função Constitutiva: A principal mudança de Reichenbach foi salvar o papel constitutivo do a priori sem assumir a sua apoditicidade (necessidade absoluta). Em suma, Reichenbach transformou o "sintético a priori" de Kant de um "conhecimento" dogmático em uma ferramenta metodológica flexível (a priori relativizado) para a construção da física moderna. 

Por ultimo temos,  Saul Kripke no clássico Naming and Necessity, nessa obra ele trás uma refutação genial. Para Kripke, é  preciso notar que a distinção entre conhecimento a priori e a posteriori é uma distinção epistémica acerca de modos de conhecer, ao passo que a distinção entre necessário e contingente é uma distinção metafísica acerca de tipos de verdade.  Para sermos mais claros o argumento do nosso autor é o seguinte: 

Se alguém sabe que P a priori, então sabe que P independentemente de qualquer informação empírica,  mas se sabe que P independentemente de qualquer informação empírica é porque a verdade de P é independente de qualquer característica do MUNDO ATUAL.

Um exemplo pratico é o seguinte;  A descoberta astronómica importante foi a de que aquele corpo celeste que aparece de manhã e a que chamamos Estrela da Manhã e aquele corpo celeste que surge ao anoitecer e a que chamamos Estrela da Tarde é afinal o mesmo corpo celeste, nomeadamente, o planeta Vénus.. como tal, algo isso foi descoberto a  posteriori.  Contudo, dado que a Estrela da Manhã é o mesmo objeto ou referente que a Estrela da Tarde, nomeadamente o planeta Vénus, a frase «A Estrela da Manhã é a Estrela da Tarde» exprime uma verdade necessária. A ideia é que um objeto é necessariamente idêntico a si mesmo. O facto de usarmos nomes diferentes para referir o mesmo objeto é irrelevante, o que é relevante é que se trata do mesmo objeto. 

Logo, necessariamente, esse objeto é igual a si próprio. Podemos pensar que é possível imaginar uma situação na qual a Estrela da Manhã não é a Estrela da Tarde. Mas essa não é uma situação em que a Estrela da Manhã não é a Estrela da Tarde, mas uma situação em que o nome «Estrela da Manhã» refere um objeto diferente do objeto que Estrela da Tarde refere. Se a Estrela da Manhã é a Estrela da Tarde, então, necessariamente, a Estrela da Manhã é a Estrela da Tarde. 

Kant nunca consegue dissipar, sobre a condição das leis empíricas da natureza, que, obviamente, não são necessárias, mas deveriam ser universais. É mérito de  Kripke  argumentar que  que existem proposições a priori que são contingentes (como esta: “A massa do dado metálico adotado como padrão pela Conferência Internacional de Pesos e Medidas é exatamente igual a um quilograma”) e outras a posteriori que são necessárias (como esta: “O elemento número dois da tabela periódica, o hélio, não forma compostos químicos com outros elementos”), são mais exemplos dessa objeção. Portanto, é impossível elaborar qualquer tipo de ciência a luz de um apriorismo absoluto como os austríacos e mais radicais libertários acreditam. 



FONTES;


The Theory of Relativity and A Priori Knowledge, Reichenbach

Saul Kripke,  Naming and Necessity



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