A ideologia que molda a Guarda Revolucionária do Irã






Devido ao atual conflito entre Israel-EUA contra o Irã, algumas coisas podem passar despercebidas pelo público, mas um olhar atento às entranhas do regime iraniano podemos nos deparar com algumas questões.  Uma delas é a seguinte, a Guarda revolucionária ( Sepah) tem ideologia? Mas qual? Quem é a o seu mentor? Não é o Khomeinismo? Bom, essas são perguntas interessantes, mas que não podemos responder de imediato sem uma breve exposição de alguns fatos, dentre eles a verdadeira ideologia que molda a guarda.

Estamos falando da influência do filósofo iraniano Ahmad Fardid, figura bastante desconhecida, mas que possui profundas influências nas instituições militares do Irã, figuras proeminentes como Ahmadinejad segue os seus ideais.  As origens de sua influência remontam a revolução de 1979, embora  Khamenei e seu gabinete tenham tentado organizar as massas no Sepah e suas organizações afiliadas, como a Basij e a polícia local, o governo iraniano não tem a organização e outros meios de impor o controle do estado sobre todos os aspectos da vida na sociedade iraniana. Eles tentaram fazer de tudo , mas não tiveram tanto sucesso quanto desejavam. A liderança durante o período Khamenei e algumas facções estão dispostas a fazê-lo, mas há resistência na sociedade contra essa abordagem.

O islamismo ultra nacionalista, o anti ocidentalismo e o anti sionismo para esse pensador é uma marca  teórica, ideológica e praticamente segue o caminho das ideologias revolucionárias do século XX.

Ahmad Fardidi  era professor de filosofia da Universidade de Teerã, assim como outro ideólogo como  Reza Dāvari, outro professor de filosofia dessa universidade, ambos exibem influências do pensamento existencialista de nada mais nada menos que Martin Heidegger.

Levando em conta muitas das teorias de Heidegger, esses autores  são vocais contra o ( o sionismo), liberalismo, modernismo, democracia, "direitos humanos", filosofia analítica e esclarecimento, sociedade civil e qualquer reforma religiosa. Eles expressam explicitamente sua animosidade em relação aos valores das democracias liberais: 

“queremos rejeitar a liberdade, a igualdade e a fraternidade da Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

Fardid reclama sobre o clima de sua era como tendo uma tendência a confundir modernismo e islamismo: 

“nossa era é a era para defesa do liberalismo e tornar o Alcorão liberal; o Alcorão recebe a face do liberalismo, democracia e Declaração Universal dos Direitos Humanos. Isso é austeridade reversa e refúgio no mal. Democracia significa austeridade em se refugiar em Satanás.”


Para ele,  “dar prioridade aos direitos humanos em frente aos direitos de Deus”. Toda ideologia no Ocidente é o símbolo de tiranos e inclinações malignas humanas, incluindo imperialismo, marxismo, colonialismo, racionalismo, irracionalismo, realismo, idealismo, espiritualismo, individualismo e coletivismo.   De acordo com  essa visão, a razão e a religião só podem ser reunidas dentro da estrutura da modernidade e a razão tem prioridade. Fardid chama essa “razão” de autofundada, oposta à razão na teologia que está sujeita à religião e é fundada por uma entidade sagrada. Ele reclama do domínio dessa razão nos tempos modernos. O humanismo, em sua crença, é baseado nessa abordagem da racionalidade e moldou religiões reformadas em nosso tempo. Fardid chama o humanismo de “originalidade do chimpanzé” ( nasnās ) em oposição à originalidade do ser humano ( ensān ).

O próprio Dāvari apresenta os proponentes do modernismo no Irã contemporâneo como oponentes do islamismo. Ele os categoriza como místicos seculares, marxistas e cientificistas que anunciam valores e costumes ocidentais como ciência moderna.  Ele equipara o modernismo iraniano ao socialismo, ingenuidade, superficialidade. Todos os intelectuais modernistas iranianos são rotulados como superficiais porque não entendem a natureza e a essência do Ocidente que é a dominação.  O modernismo e o que eles chamam de "westoxication".  Deste ponto de vista, os clérigos xiitas iranianos (adicionados desde a vitória da Revolução Iraniana) e esses nacionalistas iranianos são os únicos grupos que têm uma compreensão profunda do pensamento e das ideologias ocidentais complicadas.  Outros são analfabetos e ecléticos. Um dos aspectos do antimodernismo em Heidegger foi seu retorno à filosofia grega. Seus seguidores iranianos substituem a filosofia grega pela islâmica: “o que é chamado de ciência moderna, civilização e lógica hoje são a forma pálida e fraca da filosofia”. Semelhante à sua figura modelo que estava procurando uma maneira de retornar à filosofia grega. Tanto Dāvari e Fardid têm tentado retornar à filosofia islâmica como a original e estrutura aceita de pensamento: 

“não podemos chegar a nenhum ponto sem a filosofia islâmica e ninguém neste país pode ser um pensador a menos que seja membro dos círculos internos dos pensadores islâmicos”.

Como pré-requisito, eles negaram a filosofia e o conhecimento ocidentais modernos. Eles acreditam que qualquer civilização e sistema intelectual é baseado na filosofia  e os iranianos devem retornar à sua própria filosofia se quiserem estabelecer seu próprio sistema de conhecimento. 

Fardid cunhou o termo "qarbzadegi" (westtoxication/occidentosis). Ele e seus discípulos elevaram o anticolonialismo e as políticas externas antiamericanas a sentimentos anticivilizacionais ocidentais . Para fazer isso, eles concederam ao Ocidente uma essência satânica que não poderia ser removida por nenhuma ação positiva dos países ocidentais. Os seus discípulos foram muito cruciais em dar um sentido filosófico e metafísico aos sentimentos antiocidentais dos clérigos xiitas e revolucionários iranianos que eram contra o Ocidente devido ao seu colonialismo e hegemonia e não à sua natureza básica. Mais tarde, o islamismo clerical seguiu o mesmo caminho e chamou os EUA de "Grande Satã".

A animosidade em relação ao Ocidente é o resultado direto do antiocidentalismo filosófico . De acordo com esses pensadores, embora a substância do ateísmo e da infidelidade [na sociedade iraniana] seja local, as formas foram importadas do Ocidente. A principal causa do ateísmo e da infidelidade, em sua visão, é o humanismo ocidental, ou seja, essa crença de que o próprio homem é responsável por sua vida e seu futuro e tudo depende de suas decisões e políticas. Em outros termos, ele é o centro do mundo.  Segundo ele, a obtusidade que tem raízes na descrença no texto sagrado é uma das características do Ocidente.

Esse islamismo xiita ultra nacionalista declara o fim do Ocidente: sua metafísica, suas ideologias políticas, sua dominação econômica e sua influência cultural. Esses pensadores cabe lembrar são xiitas devotos, então  eles não negam a liderança clerical e especialmente o juristconsulto sejam  os elementos mais importantes de uma nação islâmica e de sua lei. 

“No governo islâmico, a fonte do poder é o supremo criador onipotente”.  

Fardid e Dāvari olharam pelas janelas de seus escritórios na Universidade de Teerã por anos após a Revolução e viram membros da Basij e membros do Hezbullah confrontando estudantes liberais, reformistas e dissidentes; para eles, isso era descobrir a essência do Oriente e a objetificação do fim do Ocidente.  Dāvari dá seriedade filosófica e respeitabilidade professoral às conceituações e justificativas para destruição, o esponanteismo, o  militarismo e morte que dominou tantas vidas iranianas desde a Revolução Iraniana de 1979. O modo de pensar de Fardid e Dāvari tem todos os recursos intrínsecos para empurrá -los a aceitar o islamismo e o estado ético, hermético e autoritário-religioso. 

Eles queriam ser os filósofos oficiais dos novos governantes do Irã naquele momento.  E Ali Khamenei realmente precisava, e ainda precisa, deles. Eles teorizaram ideias repressivas como a invasão cultural do Ocidente, e em troca obtiveram membros cruciais dos conselhos culturais do país, foi Khamenei quw nomeou Dāvari para alguns desses conselhos, para doutrinar as forças de defesa, os militares e a guarda revolucionária. Agora , com sua própria morte, esse será o ponto de tensão interna dentro do Irã, um regime que cada dia mais volta-se para a forte influência da guarda e o domínio absoluto da política do país e suas diretrizes por eles mesmos.


Fontes:

Farhang Rajaee, Islamism and Modernism: The Changing Discourse in Iran, University of Texas Press.

Ali Mirsepassi, Transnationalism in Iranian Political Thought: The Life and Times of Ahmad Fardid, Cambridge University Press (2017).

ISLÃ POLÍTICO NO PÓS-REVOLUCIONÁRIO Ideologias xiitas do IRÃ no discurso islâmico MAJID MOHAMMADI

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